Figura encapuzada de preto observando kits de Gunpla montados em prateleira iluminada com neons laranja e ciano

Gunpla Para Iniciantes: Os 3 Kits Certos Para Começar

HG, RG ou MG? O Colecionador explica tudo o que você precisa saber sobre Gunpla e indica os três kits certos para quem quer começar: Gundam Aerial, Wing Zero EW e Hyaku-Shiki Ver. 2.0.

A primeira caixa de Gunpla que abri ficou sobre a mesa por dois dias antes de eu encostar num runner. Não por falta de vontade. Por excesso de respeito. Aquele plástico verde, as hastes numeradas, o manual em japonês com ilustrações técnicas. Parecia que eu ia estragar alguma coisa se não soubesse exatamente o que estava fazendo.

Não estraguei nada. O kit montou sem drama, sem cola, sem tinta, sem nenhum conhecimento prévio que eu não tivesse lido em quinze minutos. E quando acabei, entendi por que tanta gente faz isso há décadas.

Gunpla é uma das formas mais acessíveis de entrar no universo dos colecionáveis geek, mas tem uma barreira de entrada que parece maior do que é. Grades, escalas, runners, nippers, panel line: um vocabulário inteiro que assusta quem está chegando agora. Neste post, vou cortar esse ruído e te mostrar o que você precisa saber para começar, com três kits que fazem sentido de verdade para quem está no começo.

O que é Gunpla, afinal?

Gunpla é a contração de Gundam + Plastic Model. São os kits de plástico da Bandai baseados nos robôs mechas da franquia Mobile Suit Gundam, criada em 1979 no Japão. Desde então, a Bandai lança kits de quase todos os mechas que já apareceram nas séries, filmes e HQs da franquia.

O que torna o Gunpla único é o sistema de encaixe. Todas as peças saem de estruturas planas chamadas runners e se encaixam umas nas outras sem cola. Você só precisa de um alicate para modelismo, chamado de nipper, para soltar as peças. O resultado final é um modelo articulado que se sustenta sozinho e pode ser posicionado em dezenas de poses.

A franquia Gundam é gigantesca, com mais de quarenta séries de anime, filmes, mangás e jogos produzidos ao longo de quase cinquenta anos. Você não precisa ter assistido nada para montar um kit. Mas se você já tem uma série favorita, existe grande chance de o mecha principal dela estar disponível em algum grade.

O que são os grades? HG, RG e MG explicados

Esse é o ponto que mais confunde quem está chegando. Grades são categorias que indicam o nível de complexidade, a escala e o nível de detalhe de cada kit. Não são marcas diferentes: são linhas da mesma Bandai, organizadas por dificuldade e faixa de preço.

Os quatro grades principais são HG (High Grade), RG (Real Grade), MG (Master Grade) e PG (Perfect Grade). Para quem está começando, os três primeiros são os relevantes.

HG é a linha mais acessível e mais recomendada para iniciantes. Os kits são na escala 1/144, o que significa que o mecha é representado num tamanho 144 vezes menor que o original. Em termos práticos, uma figura padrão fica com cerca de 13 centímetros de altura. O número de peças varia entre 100 e 200, e a maioria dos kits pode ser montada em uma a três horas. Não exige nenhuma ferramenta além do nipper e nenhum conhecimento prévio.

RG usa a mesma escala 1/144 do HG, mas com um nível de detalhe muito maior. Os runners do RG incluem peças menores e estruturas de frame interno que aumentam a articulação e o realismo. É um kit que exige mais atenção e paciência para montar, mas o resultado final é visivelmente mais sofisticado. Não é o primeiro kit ideal para a maioria das pessoas, mas é uma progressão natural depois de dois ou três HGs.

MG é a escala 1/100, o dobro do tamanho dos graus anteriores. Um mecha padrão em MG chega a cerca de 18 centímetros de altura. Os kits têm um frame interno completo que funciona como esqueleto antes de receber a armadura por cima, o que oferece uma experiência de montagem mais rica. O número de peças é maior, a construção leva mais tempo, e o resultado final tem uma presença física que os kits menores não conseguem replicar.

A faixa etária indicada nos kits começa em 8 anos para os HG mais simples e vai para 15 anos nos MG e RG. Mas esses números indicam o piso, não o teto. A comunidade de Gunpla é formada em grande parte por adultos, com construtores de 20, 30, 40 anos e mais. A complexidade técnica de alguns kits avançados não tem nada de infantil, e muitos adultos encontram na montagem uma prática meditativa, precisa e gratificante.

O que você precisa para começar a montar?

Muito menos do que parece. Para os primeiros kits, o essencial é um bom nipper de modelismo, que é o alicate específico para cortar as peças dos runners sem deixar marcas brancas no plástico. Nippers baratos deixam marcas visíveis nos pontos de corte, chamados de gate marks. Um nipper de qualidade razoável faz uma diferença imediata no acabamento sem custo alto.

O resto é opcional para os primeiros kits, mas vale conhecer o que existe. Lixas de modelismo ajudam a tratar as marcas dos gates. Uma caneta de panel line, que é uma espécie de nanquim especial para modelismo, realça os detalhes e a profundidade das peças sem nenhuma pintura envolvida. Você passa a caneta nas reentrâncias do kit, espera secar e limpa o excesso com um cotonete umedecido. O resultado muda o aspecto do kit completamente, e o processo todo leva meia hora.

Tinta e aerógrafo entram quando você quiser ir mais longe, mas não são necessários para ter um resultado bonito nos primeiros kits. Os kits da Bandai já vêm com as cores corretas moldadas diretamente no plástico. Alguns pontos de cor precisam de adesivos, que acompanham o kit, para ficarem completos. Montar e exibir um HG sem nenhum acessório extra, só com o nipper, já entrega um resultado que vale a prateleira.

Uma coisa que muita gente descobre depois: o processo de montagem em si é parte do produto. Não é só o resultado que importa. Separar as peças dos runners, encaixar a estrutura do frame, ver a figura ganhar forma progressivamente, é uma experiência diferente de qualquer outra forma de colecionar. Não é só montar um objeto. É construir algo do zero com as mãos.

Kit 1: HG 1/144 Gundam Aerial, o começo certo

O Gundam Aerial é o mecha principal de Mobile Suit Gundam: The Witch from Mercury, a série mais recente da franquia Gundam, lançada em 2022. É pilotado por Suletta Mercury, a protagonista da série, e tem um design ao mesmo tempo elegante e tecnicamente interessante. O escudo do Aerial funciona como um sistema modular de 11 hastes chamadas Bit Staves, que podem ser distribuídas pelo corpo inteiro do kit em diferentes configurações.

Na escala HG 1/144, a Bandai Spirits reproduziu o Aerial com atenção especial ao detalhamento do peito, onde fica a Shell Unit, um painel de exibição característico do mecha. O kit inclui duas versões de peças para essa área: uma representando o estado padrão e outra com transparência para simular o efeito de emissão de luz. As Bit Staves podem ser conectadas ao escudo, ao rifle de feixe ou diretamente ao corpo do kit, oferecendo um número grande de configurações de pose para um HG.

O conteúdo da caixa inclui duas sabres de feixe, um rifle de feixe, o escudo desmontável nas 11 hastes, as peças transparentes da Shell Unit, uma peça de efeito para o rifle e adesivos. Não é necessário cola nem tinta para montar. O nipper é suficiente.

Para quem está chegando no Gunpla agora, o Aerial tem o perfil ideal. O design é de uma série atual, o que significa que é um kit moderno com técnicas de moldagem mais refinadas do que kits mais antigos da mesma linha. As peças se encaixam bem, o manual é claro mesmo para quem não lê japonês, e o resultado final tem presença visual real na prateleira.

ESCOLHA DO AUTOR
Escala 1/144 (aprox. 13cm)
Grau: High Grade (HG)
Sem cola, sem tinta
Escudo com 11 Bit Staves
Peças Shell Unit transparentes
Série: Witch from Mercury
Marca: Bandai Spirits

Kit 2: RG 1/144 Wing Gundam Zero EW, o próximo nível

O Wing Gundam Zero EW é um dos mechas mais icônicos de toda a franquia Gundam. Apareceu em Gundam Wing: Endless Waltz, o filme de 1997 que encerrou a série Gundam Wing, e desde então se tornou uma referência de design dentro da comunidade. As asas angélicas brancas, a silhueta dramática e o Twin Buster Rifle são reconhecíveis até para quem nunca assistiu a série.

Na linha Real Grade, a Bandai reproduziu o Wing Zero EW com um nível de detalhe que vai além do que a escala 1/144 sugere. A estrutura das asas foi desenvolvida com referência direta a tecnologia real de aeronaves, com a forma de pena reproduzida em camadas para simular resistência ao calor e proteção estrutural. Cada asa tem cinco pontos de articulação independentes, o que permite uma variação ampla de poses sem precisar de peças adicionais. O Wing Zero também se transforma na forma Neo Bird, com rearranjo de peças, e as pernas têm um mecanismo de transformação integrado.

O frame interno zero, que é a estrutura de esqueleto do kit antes de receber a armadura, pode ser montado e ficará funcional por conta própria. Isso é uma característica da linha RG: você monta o esqueleto primeiro, vê o kit funcionar como estrutura, depois encaixa a armadura por cima. O cockpit abre, o compartimento da metralhadora na parte superior do peito também, e os beam sabers ficam armazenados nos ombros. O kit acompanha o Twin Buster Rifle, um conjunto de decais realistas e suporte de fixação para base de ação.

Esse não é o kit para começar do zero. O RG requer mais atenção nas peças menores, paciência com os decais realistas e alguma familiaridade com o processo de montagem. Dois ou três HGs antes desse kit fazem uma diferença real na experiência. Mas quem já passou pelo HG e quer um desafio maior não vai encontrar resultado melhor na escala 1/144.

VISUAL ICÔNICO
Escala 1/144 (aprox. 13cm)
Grau: Real Grade (RG)
Asas com 5 pontos articulados
Transforma em Neo Bird Mode
Frame interno articulado
Twin Buster Rifle incluso
Decais realistas inclusos
Marca: Bandai Spirits

Kit 3: MG 1/100 Hyaku-Shiki Ver. 2.0, a experiência completa

O Hyaku-Shiki é um dos mechas mais reconhecíveis de Zeta Gundam, a série de 1985 que expandiu o universo original de Mobile Suit Gundam. Pilotado por Quattro Bajeena, que é Char Aznable sob outro nome, o Hyaku-Shiki é famoso pelo seu acabamento dourado e por uma história de design curiosa: originalmente concebido como um mecha transformável no projeto Delta Gundam, a transformação foi abandonada antes do lançamento, e os mecanismos vestigiais ficaram integrados ao design final.

A versão Ver. 2.0 do MG Hyaku-Shiki foi desenvolvida para comemorar o 30º aniversário de Zeta Gundam com uma reformulação completa das proporções e da estrutura interna. A característica mais imediata do kit é o acabamento: a Bandai aplicou uma camada metálica especial diretamente no plástico para reproduzir o visual dourado do mecha. Os gates ficam na parte interna das peças, o que torna as marcas de corte praticamente invisíveis depois da montagem. O resultado é um kit que, mesmo sem tinta, tem um acabamento que não se parece com plástico comum.

Os sensores dos olhos vêm em três variações intercambiáveis: estado neutro, estado de ativação e padrão de varredura, como aparecem em momentos diferentes na série. O mecanismo de transformação das pernas e asas, resquício do projeto Delta Gundam, está incluído na articulação do kit. O conteúdo da caixa inclui beam rifle, clay bazooka, beam sabers, miniatura 1/100 de Quattro Bajeena em pé e sentada para o cockpit, e peças de retrocompatibilidade para o Ballute Pack da versão anterior.

Este é o kit de maior compromisso dos três. A montagem é mais longa, o número de peças é maior e o frame interno completo adiciona etapas que os graus menores não têm. É o kit para quem já tem alguma experiência com modelismo ou que quer entrar no Gunpla com um projeto que vai ocupar mais de um fim de semana. O resultado final tem uma presença na prateleira que HG e RG não chegam perto de replicar, e o dourado metálico garante que ele vai chamar atenção em qualquer coleção.

VERSÃO PREMIUM
Escala 1/100 (aprox. 18,5cm)
Grau: Master Grade (MG)
Acabamento dourado metálico
Frame interno completo
3 variações de sensor ocular
Beam rifle e clay bazooka
Marca: Bandai Spirits

Compra internacional: o que saber antes de pedir

Os três kits listados aqui são vendidos na Amazon BR como importação internacional pela Bandai Spirits, com milhares de avaliações positivas na plataforma. Isso não é nenhum problema para o produto em si: são kits originais, lacrados de fábrica, sem diferença de qualidade em relação ao que é vendido no Japão ou nos Estados Unidos.

O ponto de atenção é o processo de importação. Compras internacionais acima do limite de isenção fiscal ficam sujeitas a taxas alfandegárias. Vale verificar as condições de cada compra no momento em que você for pedido, porque os valores e políticas podem mudar. A Amazon costuma informar o valor total com impostos antes da finalização do pedido.

O manual do kit vai estar em japonês, que é padrão para kits da Bandai vendidos globalmente. As ilustrações técnicas são tão claras que o idioma raramente cria dificuldade. A comunidade brasileira de Gunpla é ativa e tem farta documentação de montagem em português para os kits mais populares, caso você precise de apoio adicional.

Qual dos três comprar?

Se você nunca montou nada: o HG Aerial. Sem hesitação. Ele é moderno, o design é de uma série atual que tem tudo a ver com quem está chegando no Gunpla agora, e o nível de complexidade é o ideal para uma primeira experiência. Você vai terminar o kit satisfeito e vai querer o próximo.

Se você já tem alguma experiência com modelismo plástico ou já montou alguns HGs: o RG Wing Zero EW. O desafio é real, o resultado é extraordinário, e o Wing Zero tem um apelo visual que justifica cada minuto de montagem.

Se você quer se comprometer com um projeto maior desde o início: o MG Hyaku-Shiki Ver. 2.0. O kit tem um acabamento dourado metálico que não exige nenhuma pintura e uma história de design que vale conhecer. Você vai aprender mais sobre Gunpla neste kit do que em cinco HGs.

O Veredito Geek

Gunpla tem uma barreira de entrada que parece maior do que é. O vocabulário assusta, as prateleiras cheias confundem, e a variedade de opções pode paralisar quem está decidindo por onde começar.

A resposta prática é simples. Você não precisa conhecer toda a franquia. Não precisa de ferramentas caras. Não precisa de experiência prévia. Você precisa de um bom nipper, de uma tarde livre e do kit certo para o seu momento. Os três kits deste post representam três momentos diferentes dessa jornada, e nenhum deles vai te decepcionar se você souber qual dos três é o seu ponto de entrada.

O que acontece depois do primeiro kit é quase sempre o mesmo: você olha para a prateleira, vê o kit montado, sente que construiu algo de verdade, e começa a pensar no próximo. HG vira RG vira MG. A progressão faz sentido porque cada nível entrega algo diferente, não apenas maior ou mais detalhado. É outro tipo de satisfação.

A prateleira do Colecionador começa com uma caixa. Às vezes essa caixa fica parada por dois dias antes de você abrir. Mas quando você abre, não para mais.

A sua prateleira merece peças feitas com paixão.

O veredito está dado!


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O Colecionador

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